Fé e Tradição une devotos do Divino Espírito Santo em Luziânia

Cultura

Estamos em maio de 2017, mas se um viajante do tempo descesse na cidade vindo do século XVIII, talvez não percebesse a mudança de época. Nesse período Luziânia respira tradição e está colorida com o vermelho do Divino Espírito Santo, exatamente como faziam seus ancestrais desde a fundação da cidade.

O vermelho representa um dos dons do Espírito Santo, a fortaleza, e também o fogo, uma alusão à forma pela qual o Espírito Santo se manifestou aos apóstolos e à Virgem Maria no cenáculo. A cor é também o tom oficial das bandeiras dos devotos, que é um dos símbolos do evento. Elas são usadas tanto na parte religiosa quanto na folclórica da festa.

Apesar das características comuns como o desenho da pomba branca ao centro, cada devoto dá um toque especial ao seu estandarte. Alguns incrementam com flores, bordados e pintura. No topo do mastro está sempre a figura da pomba, que representa o Espírito Santo, dentro de uma esfera feita de madeira, metal ou gesso. Na base da bandeira os devotos colocam fitas coloridas de acordo com os dons do Espírito Santo. Alguns devotos dão nós nas fitas, representando o alcance de uma graça recebida.

A origem

A origem da Festa do Divino remonta a Portugal do século XIV, com uma celebração estabelecida pela rainha Isabel (1271 a 1336), por ocasião da construção da igreja do Espírito Santo, na cidade de Alenquer. A devoção se difundiu rapidamente e tornou-se uma das mais intensas e populares em Portugal, chegando ao Brasil com os primeiros colonizadores.

Originalmente, a Festa do Divino constituía-se do estabelecimento do Império do Divino, com palanques e coretos, onde se armava o assento do Imperador, uma criança ou adulto escolhido para presidir a festa, que gozava de poderes de rei. Tinha o direito, inclusive, de ordenar a libertação dos presos comuns, em certas localidades do Brasil e de Portugal.

Para arrecadar os recursos de organização da festa, fazia-se antecipadamente a Folia do Divino: grupos de cantadores visitavam as casas dos fiéis para pedir donativos e todo tipo de auxílio. Levavam com eles a Bandeira do Divino, ilustrada pela Pomba que simboliza o Espírito Santo, que era recebida com grande devoção em toda a parte. Essas Folias percorriam grandes regiões, se estendendo por semanas ou meses inteiros. Para se ter uma ideia do prestígio da Festa do Divino no século 19, o folclorista Câmara Cascudo lembra que o título de “imperador do Brasil” foi escolhido em 1822, pelo ministro José Bonifácio, porque o povo estava mais habituado com o título de imperador (do Divino) do que com o nome de rei.

Fé, trabalho e dedicação

Em Luziânia muitas pessoas se mobilizam para a Festa do Divino. Diversos artesãos se dedicam à confecção de bandeiras e a preparação de altares que receberão o estandarte nos variados comércios e órgão públicos da cidade.

Esse é o caso das artistas plásticas Marta Cassiano e Geralda Meireles, que a mais de uma década constroem o altar para recepcionar a Bandeira na sede da Prefeitura. Marta destaca que apesar da experiência adquirida nesses anos, sempre fica apreensiva. “Não se trata de um trabalho simples porque os devotos aguardam com expectativa o resultado. Trata-se de um momento muito especial na vida da cidade”, afirma. Para Geralda Meireles, “a construção artística do altar é mais que um trabalho, significa a materialização de um sentimento de amor, de devoção e de fé”, explica a artista.

Juventude – a cultura e a fé no futuro

A expressiva participação de jovens é uma das marcas mais importantes da Festa do Divino em Luziânia. Em todos os eventos é fácil perceber dezenas de jovens envolvidos voluntariamente nos trabalhos. Um amálgama de cultura, fé e renovação que fortalece a ideia de que a tradição da Bandeira do divino se estenderá por muitas gerações futuras na cidade.

A jovem Suélia é um exemplo disso. Coordenadora da juventude católica, ela afirma que “nossa principal motivação é servir, com dedicação e fé, visando a continuidade dessa tradição na cidade”, contou à nossa equipe.

Anfitrião

O prefeito Cristóvão Tormin foi o anfitrião da Bandeira do Divino, recepcionando o cortejo no saguão da prefeitura municipal, juntamente com todo o seu secretariado. Ouvido por nossa reportagem, afirmou que “esse é um momento muito rico em significados; a Festa do Divino Espírito Santo simboliza a esperança na chegada de uma nova era que trará paz, liberdade e solidariedade. A festa celebra a constituição do Império da Igualdade, onde predomina a partilha, a caridade e a união entre as pessoas, e é com esse espírito e sentimento que abro as portas da prefeitura para receber a história, a tradição e as bênçãos do Divino Espírito Santo para todos os moradores de Luziânia” afirmou o prefeito.