Integrantes do Movimento Crítica Radical fazem campanha por voto nulo em Fortaleza

“Espetáculo” de corrupção afasta eleitor da política e aumenta abstenção

Política

A não participação de eleitores nas eleições municipais bateu recorde em 2016, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

As abstenções neste domingo (30) chegaram a 21,55%, batendo o índice de 2012 (19,12% do total de eleitores), que era o maior desde então. Os votos inválidos atingiram os maiores patamares desde 2000.

Nulos quase dobraram em relação à última eleição, passando de 4,81% em 2012 para 8,33% no segundo turno deste ano. Brancos tiveram leve alta, indo de 2,63% para 2,88%.

No primeiro turno, esses números já eram os mais altos desde 2000. Abstenções eram 17,58%, enquanto nulos eram 8,14%, e brancos, 2,87%.

No primeiro turno, cerca de 25 milhões de brasileiros deixaram de votar – 17,5% do eleitorado, que é de 144 milhões de pessoas. Este é o maior índice registrado em um primeiro turno desde o ano 2000, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Os números não levam em conta os votos nulos e em branco, considerados inválidos. Nas eleições de 2012, em comparação, a abstenção tinha sido de 16,41%.

Não há dúvidas de que a classe política tem deixado a desejar na credibilidade, e quem acompanha o assunto mais de perto avalia que o desempenho das urnas este ano é consequência de um ‘espetáculo’ cada vez mais vergonhoso.

“Um espetáculo político que seria justamente um escândalo”, diz Roberto Romano, professor de filosofia e ética da Unicamp. “Os políticos se julgam incólumes, se julgam capazes de fazer o que quiserem sem ter uma sanção negativa. Decoro parlamentar não é só não falar palavrão e usar um terno com gravata. É todo um sistema de comportamento que faz com que o representante respeite o representado e não meta a mão no seu dinheiro, por exemplo.”

Na opinião do professor, o cidadão que se sente desrespeitado e se nega a votar ou a escolher um candidato pode até fazer disso uma forma de protestar, mas na prática, acaba transferindo a outros a responsabilidade de resolver sua insatisfação.

“Na vida e na política, tem um ditado que é importantíssimo: não existe espaço vazio. Se o espaço não é preenchido por pessoas honestas, pessoas que tenham retidão de caráter, boas intenções e que, ao mesmo tempo, tenham capacidade mínima de administração, evidentemente você vai ter o espaço preenchido por gente que não é assim”, analisa Romano.

Eleitor não conta

Políticos afundados em casos policiais como os do mensalão e da Operação Lava Jato desencorajam o eleitorado, mas também a dificuldade em participar repele o voto, diz Vera Chaia, cientista política e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

De uns anos para cá, ela destaca, situações que levaram muitos cidadãos a se envolver e a questionar a política brasileira, como as manifestações de rua a partir de 2013, se transformaram, logo depois, em uma prova de que eles contam pouco para os resultados.

“O que o eleitor vê é que ele não interfere em nada. O processo eleitoral se dá pelos partidos. Existe uma briga política dentro das casas legislativas, seja Senado, Câmara Federal, Assembleia Legislativa ou Câmara Municipal, e as decisões são feitas em outra esfera, que não envolve o cidadão”, critica a professora.

“Havia uma grande esperança de uma parcela do eleitorado de que a economia iria mudar imediatamente, a corrupção iria acabar a partir do momento em que ocorresse uma mudança de governo, e o que a população viu é que nada mudou”, afirma ela sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Apoliticismo

Também pesa no desestímulo ao eleitor a ideia de que todo e qualquer político é “farinha do mesmo saco”. A mensagem é antiga, vem de um Brasil do século 19, explica o professor Romano, quando já se relacionava políticos de carreira à incompetência ou desonestidade.

“O Brasil, desde o século 19, está sendo inoculado contra a vida política, esse fantasma de que a política é uma coisa suja ou incompetente. O apoliticismo vem desde a presença dos militares positivistas na proclamação da República. Como eles eram contrários à democracia, sobretudo a democracia liberal, preferiam a administração feita por técnicos, e passaram a identificar, na propaganda, a democracia com o caos, a desordem e a corrupção”, ele afirma.

Tanto para o professor como para a cientista política da PUC-SP, não adianta repreender o cidadão que se ausenta sem oferecer a ele um sistema político e eleitoral que dê mais chances às condutas democráticas.

“Acredito que, com o voto facultativo, os partidos vão ter de fazer com que o eleitor saia de sua casa para votar porque vai valer a pena, porque vão provar que podem fazer uma mudança na política e merecem seu voto. Atualmente, o eleitor só vai votar por obrigação”, defende Vera Chaia.

Reforma política

A reforma política que poderá, por exemplo, transformar o voto obrigatório em facultativo terá de começar com a democratização dos partidos, argumenta Romano, para quem o sistema de administração das legendas se tornou “oligárquico”.

“São poucos dirigentes e que permanecem no cargo por 20, 30 anos. O que quer dizer que eles conhecem a máquina do partido, os recursos financeiros, os financiadores possíveis ou não. Quando você tem esse tipo de controle desses poucos sobre a máquina inteira, não adianta só entrar gente nova. É preciso proibir um dirigente de permanecer por mais de dois anos. Porque se ele continua, ele controla tudo”, contesta o professor.

A representatividade, ou identificação que o eleitor sente com quem está no poder, fica comprometida nesse universo em que, de acordo com a professora Chaia, valem mais os interesses do partido do que os da maioria.

“Existe o partido que representa os evangélicos, existe o partido que é mais ligado à bancada ruralista, são segmentos que até favorecem a compreensão do eleitor em relação a quem é quem nas casas públicas, mas a democracia perde com isso, a partir do momento em que esses segmentos só pensam nas suas bases eleitorais”, ela conclui.

Fonte: eleicoes.uol.com.br