Campanha eleitoral mais curta e com menos dinheiro reforça relevância das redes

Política, Tecnologia

Com menos tempo de propaganda no rádio e na televisão e sem doações de empresas para candidatos, o peso das redes sociais nas campanhas deve crescer nas eleições municipais de 2016. No entanto, os possíveis postulantes ainda não estão aproveitando o potencial delas, avaliam especialistas em marketing e política.

No ano passado, o Congresso aprovou a mudança no financiamento e diminuiu em quase um mês e meio o tempo oficial da campanha, que começará em 15 de agosto. Além disso, o período de propaganda eleitoral no rádio e na televisão caiu de 45 para 35 dias.

Entender o que os eleitores querem saber é importante porque, nesta eleição, a internet vai ser protagonista, segundo a avaliação de Rafael Araújo, professor de ciência política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). “Principalmente pela mudança de financiamento. Hoje, é uma obrigação ter uma campanha nas redes. Elas têm pautado a mídia tradicional. Seria burrice desperdiçar isso. [Os candidatos] têm de se apropriar da rede”, diz.

Não por acaso, o Facebook já serve de arena para a principal disputa deste ano, a pela Prefeitura de São Paulo, a maior cidade do país, com 8,8 milhões de eleitores. A rede social conta com 99 milhões de usuários ativos por mês no Brasil, segundo dados divulgados pela empresa em janeiro. A maioria dos pré-candidatos já usa seus posts para avaliar a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que tentará a reeleição, e comentar o cotidiano paulistano. O petista, por sua vez, divulgou atos da sua gestão em 6% dos seus posts.

Na disputa por curtidas e compartilhamentos, quem sai na frente é o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), cuja página tem 3,77 milhões de seguidores. Esse número é mais de cinco vezes o do segundo colocado no quesito, o também deputado federal e apresentador de TV Celso Russomanno (PRB), líder na pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Ibope no dia 21 de junho. O UOLobservou todos os posts publicados no primeiro semestre nas fanpages dos pré-candidatos que pontuaram na pesquisa.

Veja quantos seguidores tem cada pré-candidato:

  1. Marco Feliciano (PSC): 3,77 milhões
  2. Celso Russomanno (PRB): 670 mil
  3. Major Olímpio (Solidariedade): 292 mil
  4. João Doria (PSDB): 225 mil
  5. Luiza Erundina (PSOL): 203 mil
  6. Fernando Haddad (PT): 199 mil
  7. Levy Fidelix (PRTB): 165 mil
  8. Marta Suplicy (PMDB): 134 mil
  9. Andrea Matarazzo (PSD): 51 mil
  10. Delegado Olim (PP): 29 mil

A importância das redes sociais na campanha deve deixar os candidatos em alerta para seu mau uso, lembra o professor Rafael Araújo. “A internet trouxe o recurso da campanha negativa. Antes, o uso era do candidato nanico [para criticar os adversários]. Hoje, com as redes, pode-se fazer uma campanha negativa anônima”, afirma.

Além da nova lei eleitoral, o clima político do país contribui para a relevância das redes sociais rumo às urnas, diz Emmanuel Publio Dias, especialista em marketing político e professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). “Um fato novo é o engajamento [nas redes] que surgiu após a eleição presidencial e a crise política. Houve uma discussão sobre política. Tem muito mais gente falando sobre política”, afirma.

Para o CEO da empresa de monitoramento Social Figures, Thiago Contri, as novas regras de campanha “forçaram” os políticos a usarem as redes com mais intensidade, o que pode beneficiar o eleitor.

“Os usuários que estão vendo este tipo de mensagem [sobre um político] geralmente curtiram a página do candidato e estão interessados neste tipo de discussão”, afirma. “O debate sempre existiu muito mais entre políticos e ruma cada vez mais para incluir o eleitor.”

No entanto, segundo Alexandre Secco, sócio da Medialogue Comunicação Digital, os políticos “acham que podem tratar uma nova mídia com uma velha cabeça”, mesmo com o protagonismo da política nas redes.

“Antes, o político aparecia só na campanha, quando a propaganda era liberada. Hoje, todos podem trabalhar constantemente para construir suas redes e interagir com elas, não apenas quando a campanha se aproxima”, diz.

Infelizmente, os políticos só se preocupam com as redes sociais na boca da campanha –exatamente como faziam antes

Alexandre Secco, analista de comunicação digital

As estratégias só devem ser vistas mais claramente depois de 5 de agosto, quando todas as candidaturas terão sido oficialmente anunciadas. Por enquanto, a eleição municipal ainda é um tema fora do dia a dia. “O assunto [eleição] ainda não está entre as pessoas e são elas que fazem o processo político ganhar força. A campanha não despertou entre os paulistanos”, diz o professor Dias.

Nas redes, os políticos fogem um pouco do tom de campanha tradicional, mas ainda têm o que melhorar e perdem a chance de usá-las para se diferenciar dos adversários, aponta o consultor de marketing de conteúdo Cassio Politi. “Acho que nenhum político conseguiu entender ainda que o tipo de informação que ele dá tem que ser algo que interesse à população, e não a ele”, afirma.

Média do desempenho dos pré-candidatos por post:

  • Marco Feliciano (PSC): 13.432 curtidas, 1.125 comentários, 4.894 compartilhamentos
  • Fernando Haddad (PT): 4.853 curtidas, 305 comentários, 813 compartilhamentos
  • Celso Russomanno (PRB): 4.389 curtidas, 374 comentários, 1.511 compartilhamentos
  • Levy Fidelix (PRTB): 2.625 curtidas, 168 comentários, 527 compartilhamentos
  • João Doria Jr. (PSDB): 1.901 curtidas, 116 comentários, 2.265 compartilhamentos
  • Major Olímpio (Solidariedade): 1.867 curtidas, 120 comentários, 956 compartilhamentos
  • Luiza Erundina (PSOL): 1.654 curtidas, 69 comentários, 385 compartilhamentos
  • Andrea Matarazzo (PSD): 270 curtidas, 26 comentários, 42 compartilhamentos
  • Delegado Olim (PP): 249 curtidas, 25 comentários, 20 compartilhamentos
  • Marta Suplicy (PMDB): 213 curtidas, 380 comentários, 36 compartilhamentos

Fonte: Uol